quinta-feira, 23 de julho de 2015

Segundo relatório da PF, Folha combinou entrevista com Marcelo Odebrecht

 Marcelo Bahia Odebrecht, preso na Lava Jato

No polêmico documento revelado por reportagem do Estadão, constam páginas supostamente em branco, cujo conteúdo foi omitido. Elas escondem troca de e-mails entre Odebrecht e seus colaboradores, que conversam sobre entrevista solicitada pela Folha de S. Paulo. Um dos funcionários do empresário diz que ele só deve falar “se o repórter antecipar as perguntas” e que o diálogo “só vale se for pra mandar recado”

Por Redação

Relatório da Polícia Federal divulgado na última terça-feira (21) por reportagem do jornal O Estado de S. Paulo tem mais a revelar do que as relações de Marcelo Odebrecht com políticos de governo e oposição. Após o mistério da “tarja preta” – colocada sobre o nome do senador José Serra (PSDB-SP) –, o site Tijolaço descobriu agora a polêmica da “tarja branca”, que esconde troca de e-mails entre o empresário e seus colaboradores sobre uma entrevista solicitada pela Folha de S. Paulo. Em um dos trechos, Sergio Bourroul, diretor de Comunicação da Odebrecht, afirma que Marcelo só deve falar “se o repórter antecipar as perguntas” e que a conversa “só vale se for para mandar recado”.

O diálogo entre o executivo e sua equipe, ocorrido em agosto de 2014, pode ser encontrado na parcela em branco das páginas 23, 24 e parte da 25 do documento (para baixá-lo, clique aqui). Não se sabe por que essa parte foi ocultada, mas para visualizá-la, basta selecionar os espaços supostamente vagos, copiar e colar em editor de texto ou mesmo em um bloco de notas.
Confira abaixo o conteúdo omitido dos leitores:

A anotação registrada sob o número 2110, com data de 28/08/2014, trata da entrevista solicitada a Marcelo pela Folha de São Paulo, na troca de e-mails Marcelo e seus colaboradores, verifica-se a intenção de conceder a entrevista somente se as perguntas forem antecipadas e sem conteúdo polêmico. Inclusive Sergio Bourroul argumenta que só vale a pena a entrevista se for possível mandar recados, não mencionando para quem, nem que tipo de recado seria, inclusive instrui Marcelo a capitalizar a concessão da entrevista, dizendo que “abriu uma exceção em consideração ao pedido da direção do jornal”.


Assunto: Entrevista Folha de São Paulo (Repórter “A” e
Repórter “B”),
Assistentes:
Localização: sala reuniões DP – 15º andar
Detalhes:
SB na coordenação.
Marcelo,
a primeira entrevista da série será com Abilio Diniz, a ser
publicada neste domingo, dia 24. A sua será a segunda, no
dia 31.
A reportagem estava aguardando as confirmações de Murilo
(Vale), Roberto Setubal (Itaú) e Joesley (JBS). Não sei se
emplacou todos.
Você receberá dois repórteres (A e B), que virão acompanhados de um fotógrafo.
Confirmado às 9h00 de amanhã e eu te acompanharei.
Abaixo, repasso os principais pontos que nortearão a
conversa:
O país deve crescer abaixo de 1%
não foram muito melhores. Quais são os principais gargalos
que impedem o crescimento?
O que é preciso mudar para que os empresários voltem a
investir?
Na sua opinião, quais deveriam ser as três prioridades do
governo logo no primeiro ano?
Independente de quem venha a ser eleito, a previsão geral
é de um ajuste duro em 2015. Qual é a sua expectativa?
Os preços públicos, como gasolina, energia e tarifa de ônibus
estão represados. Qual seria a melhor estratégia para ajustar
a economia: um tarifaço logo de cara ou aumentos graduais?
O Banco Central vem fazendo intervenções no mercado para
segurar o real. O sr. acha que seria possível voltar ao câmbio
flutuante de fato ou isso teria um impacto muito forte sobre a
inflação?
O desemprego, que até agora estava controlado, começou a
aparecer aqui e ali. O sr. acha que pode haver uma onda de
demissões pela frente?
A campanha de Dilma se queixa de que o mercado faz
terrorismo eleitoral quando aposta contra ela na bolsa e que
não é a primeira vez que isso acontece no Brasil. Qual é sua
opinião? O mercado faz terrorismo?
O Supremo está a um passo de acabar com o financiamento
privado de campanhas políticas. Na sua opinião, isso é bom
ou ruim?
O setor privado vive pedindo ajuda do governo, como
benefícios fiscais e recursos do BNDES. Por que os
empresários no Brasil dependem tanto do governo?
Abs,
De: Marcelo Bahia Odebrecht
<mbahia@odebrecht.com<mailto:mbahia@odebrecht.com>>
Data: 6 de agosto de 2014 22:19:14 BRT
Para: Sergio Bourroul
<sergiobourroul@odebrecht.com<mailto:sergiobourroul@odebrecht.com>>
Cc: Daniel Villar
<dvillar@odebrecht.com<mailto:dvillar@odebrecht.com>>,
Leonardo Sa de Seixas Maia
<lsmaia@odebrecht.com<mailto:lsmaia@odebrecht.com>>,
Zaccaria Junior
<zaccaria@odebrecht.com<mailto:zaccaria@odebrecht.com>
Assunto: Re: pedido da Folha de S.Paulo
Ok
From: Sergio Bourroul
Sent: Wednesday, August 6, 2014 19:14
To: Marcelo Bahia Odebrecht
Cc: Daniel Villar; Leonardo Sa de Seixas Maia; Zaccaria Junior
Subject: Re: pedido da Folha de S.Paulo
Marcelo,
A sugestão de DV é boa.
Você fala se o repórter antecipar as perguntas. Vou solicita-las, ok?
E capitalizar dizendo que vc abriu uma exceção em
consideração ao pedido da direção do jornal.
Enviada do meu iPhone
Em 06/08/2014, às 19:05, “Marcelo Bahia Odebrecht”
<mbahia@odebrecht.com<mailto:mbahia@odebrecht.com>>
escreveu:
Se fosse uma entrevista apenas minha (e não uma serie) e
como foco geral em nós, eu negaria. Não apenas pelo
momento, como porque temos negado para todos.
Mas se o foco eh nas prioridades para o País nos próximos
anos, e não em nós, e como parte de uma série de poucos
empresários, minha tendência seria aceitar.
From: Daniel Villar
Sent: Wednesday, August 6, 2014 18:58
To: Sergio Bourroul; Marcelo Bahia Odebrecht
Cc: Leonardo Sa de Seixas Maia; Zaccaria Junior
Subject: RES: pedido da Folha de S.Paulo
Marcelo,
O que acha da demanda abaixo?
Já fui mais reativo no passado recente a uma participação
sua, mas pelo contexto descrito pela CDN, e pela provocação
de SB, pode haver espaço para mensagens da Organização,
desde que enviem previamente as perguntas e que as
mesmas não sejam politizadas.
De: Sergio Bourroul
Enviada em: terça-feira, 5 de agosto de 2014 19:11
Para: Daniel Villar
Cc: Leonardo Sa de Seixas Maia; Zaccaria Junior
Assunto: RES: pedido da Folha de S.Paulo
Daniel,
Favor avaliar a solicitação abaixo, da Folha de S. Paulo. Acho
que devemos preservar MO, mas é possível que ele queira
aproveitar para mandar algum recado. O repórter garante que
não haverá questionamentos polêmicos e que envolvam
diretamente a Odebrecht (Petrobras, BNDES, contratos,
doação para campanha, preferências políticas etc). Quer
apenas abrir espaço para a opinião de MO sobre os gargalos do crescimento do Brasil e as prioridades do próximo governo. Só vale se for para mandar recados. Caso contrário, declinamos com tranquilidade.
Obrigado,
Abs,
De: Zaccaria Junior
Enviada em: terça-feira, 5 de agosto de 2014 18:58
Para: Sergio Bourroul
Cc: Leonardo Sa de Seixas Maia; Elea Cassettari Almeida
Assunto: pedido da Folha de S.Paulo
Sérgio, o “repórter A“  da Folha me procurou. Ele informou que o jornal
vai aproveitar o período pré-eleitoral para discutir o futuro do
país por meio de uma série de entrevistas com os principais
empresários brasileiros. Eles devem abordar quais serão os
desafios do próximo governo, independente de quem venha a
ser eleito, para o país voltar a crescer, recuperar o otimismo,
atacar os gargalos que , segundo eles, “impedem o país de
deslanchar”. Palavras do “repórter A“ : “A ideia é publicar uma
entrevista por semana, como parte de uma série, e
preparamos uma lista com os empresários mais respeitados
do país. O jornal gostaria muito de contar a seus leitores o
que o Marcelo Odebrecht pensa disso. A retomada do
crescimento passa por mais investimentos e portanto pelo
setor de infraestrutura e a Odebrecht tem tido um papel
central nessa área. Nossa ideia é começar a publicar as
entrevistas já no início deste mês. Estamos convidando
Roberto Setúbal, Luiz Carlos Trabuco, Murilo Ferreira, Abilio
Diniz, Pedro Passos, entre outros. Mas é uma lista restrita.”
Sérgio, acrescentando, David contou ainda que o secretário
de redação (…)passou na mesa dele dia desses
para falar das entrevistas e perguntou: “E o Marcelo
Odebrecht, que seria a cereja do bolo?”. Mais uma vez,
palavras do David: “Queria que vocês soubessem e reafirmar
que uma entrevista com ele teria espaço nobre e seria bem
tratada”.
Abs,
Zacca
(Foto: Reprodução/Tijolaço) 

(Foto de capa: Estadão)

Fonte: Forum

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