quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Alunos ocupam UEL contra PEC, MP e por Aninha da Balinha

Alunos ocupam UEL exigem da reitoria que a estudante Anne Caroline Santos Ramalho possa voltar a residir na moradia estudantil.

Estudantes ocupam UEL por Aninha da Bala

Os protagonistas das ocupações de escolas e universidades pelo Brasil têm como pautas principais a retirada das PECs 55 e 241 e da MP 746, mas temas peculiares às instituições de ensino ocupadas têm sido rotineiramente incluídos entre as reivindicações dos estudantes. Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), além das PECs e da MP em questão, os alunos exigem da reitoria que a estudante Anne Caroline Santos Ramalho, de 22 anos, possa voltar a residir na moradia estudantil. O caso de Anne Caroline, conhecida entre os colegas como Aninha da Balinha, contém indícios de perseguição, afirmam estudantes que participam da ocupação. Ela foi expulsa da moradia estudantil da UEL no início de outubro depois de ser alvo de uma enxurrada de processos administrativos por suposta perturbação dentro da ordem nas acomodações.


Nascida em Presidente Venceslau, no oeste paulista, Anne Caroline viveu na Grande São Paulo antes de mudar-se para Londrina com o objetivo de ingressar na UEL. Por comprovar a baixa renda, a administração da universidade concedeu a ela o direito à moradia gratuita já quando prestava o vestibular para o curso de Serviço Social. Ganhou o apelido de Aninha da Balinha por causa das balas de coco que produz para complementar sua renda.


Negra, pobre e lésbica, Aninha relatou ao JL que passou a ser tratada de maneira diferente pelo corpo de funcionários e de assistentes sociais da UEL no decorrer do último ano e meio, especialmente depois de ter-se envolvido com a militância estudantil e de ter publicado no YouTube um vídeo no qual expõe os problemas enfrentados pelos 82 jovens que vivem na moradia estudantil da universidade.



“Alguém cantou a bola para um grupo de alunos da moradia que não gosta de mim que se eles abrissem processos administrativos pelo meu comportamento eu poderia ser expulsa”, alega Aninha.
Entre dezembro do ano passado e julho deste ano, cinco processos administrativos foram abertos contra Aninha por diferentes pessoas, entre elas Jailson Aparecido Pinheiro, responsável pela supervisão predial da moradia.


As queixas e notificações contra a estudante vão desde mexer na maçaneta de um quarto ocupado por outros estudantes – por engano, segundo ela – e ouvir som em volume alto a colocar água para um cachorro que vagava pelo campus e pular a catraca de acesso à moradia. Pesam contra ela outras reclamações, como andar de skate nas instalações da moradia e derrapar a moto no interior do campus.


Em um ofício com data de julho do ano passado, a então chefe da Divisão de Moradia da UEL, Cristiane Vercesi, acusa Aninha de tratar a moradia estudantil da universidade como “se fosse a casa dela” e de ser agressiva e desrespeitosa com alguns funcionários e moradores do local.


Aninha admite ser “meio marrenta”, mas acredita que a burocracia da universidade esteja sendo usada contra ela por preconceito e por causa de sua militância. Segundo Aninha, alunos do outro grupo violam normas do regimento da moradia sem serem incomodados pela administração, inclusive ouvir música em volume elevado. Até mesmo as balinhas de coco vendidas por ela na universidade causaram problemas. “Um dia chegaram pra mim com uma multa de mil reais. Disseram que eu não podia vender nada dentro do campus da UEL. Como se eu fosse a única pessoa aqui que vende alguma coisa pra complementar a renda”, prosseguiu a estudante.


Em um documento no qual defendeu a adoção de medidas punitivas contra a aluna antes do início da enxurrada de processos administrativos, Cristiane Vercesi relata em ofício um episódio ocorrido durante uma visita do deputado estadual Tercílio Turini à UEL. Segundo a ex-chefe da Divisão de Moradia, o político ouviu da aluna “todo tipo de avaliação negativa” sobre o local. “Falas do tipo ‘essas máquinas de lavar fazem as roupas saírem sujas’, ‘os fogões não funcionam’, ‘as paredes são horríveis’”, escreve Cristiane Vercesi. As queixas da aluna estão em linha com as reclamações apresentadas por ela no vídeo publicado no YouTube em março de 2015. Em resposta, o deputado sugeriu que, apesar da burocracia existente, Aninha colocasse suas queixas no papel e apresentasse um projeto de melhorias à administração da moradia. Como resposta, ele ouviu: “Pois é, deputado, aqui não se faz projeto porque a chefia fica no Facebook”.


A estudante não seguiu a orientação do deputado e, de acordo com ela, o clima azedou ainda mais depois dessa conversa.


Desde a expulsão, no início de outubro, Aninha passou a dormir em casas de amigos. Segundo ela, se não conseguir retornar à moradia estudantil da UEL não terá condições de se manter em Londrina e se verá obrigada a abandonar a universidade.


“Entendemos a situação da Anne como perseguição e por isso a volta dela à moradia estudantil passou a constar da nossa pauta de reivindicações”, explicou um representante da ocupação da UEL.


A reportagem  procurou por Cristiane Vercesi na UEL e recebeu a informação de que ela se aposentou recentemente. Na Divisão de Moradia da UEL, um funcionário limitou-se a informar que os processos referentes à perda do benefício de Aninha está sob responsabilidade do departamento jurídico. 



Informações dos Jornalistas Livres

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