sábado, 18 de março de 2017

Movimento separatista no Nordeste

  
Cangaceiro (1958) - Portinari

Como em outras partes do Brasil, já houve um sentimento separatista em algumas pessoas que as vezes se mostra velado em algumas situações específicas da política ou do dia-a-dia.

O nordeste do Brasil tem uma área de 1.561.177,8 km². Dentro dele cabem a França, Alemanha, Espanha, Portugal e ainda sobra muito espaço. Há países muito prósperos que tem, mesmo não tendo razões para ressentimentos e rancores ou graves problemas econômicos como o Canadá, Itália, França ou a Espanha.











Na verdade, dificilmente há um país que não tenha movimentos separatistas atuantes. Pelo mundo, desde uma organização que prega a separação do Alasca dos Estados Unidos (onde há muitos) até os dos micro países da Oceania, passando pela Catalunha, na Espanha.Muitos deles são extremamente organizados ao ponto de editar livros, folhetos, jornais, revistas e sites na Internet, além de organizarem manifestações esporádicas. Os motivos que nutrem o sentimento separatista são variados: perseguição étnica ou religiosa, centralismo político, questões econômica e a simples reivindicação de auto-determinação.

Por muito tempo o Nordeste, a região de colonização mais antiga se recente do abandono econômico pelo governo federal. Mas dificilmente qualquer movimento separatista no Brasil lucraria qualquer resultado positivo,. Não só porque é crime previsto em nossa Constituição atentar contra a união, como também pela sua história, cultura, língua e interesses comuns. Os sentimentos separatistas no Brasil, ou são fruto de idéias de grupos minúsculos e isolados ou são puramente bravatas no calor dos acontecimentos de algum problema regional.


A pendenga entre as regiões no Brasil, se não é violenta, pelo menos é bem antiga. É o que revela a revista Superinteressante em uma reportagem sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870):



"Uma tarde, o 16º Batalhão brasileiro acampado em Tuiuti entra em forma e um soldado cai de cara no chão. Era a cólera. Surgida nos acampamentos de Itapiru, ela se espalhou entre tropas aliadas e paraguaias. Levada para o interior do Paraguai, causou grande número de mortes entre civis.
Desabituados à alimentação e ao frio, os brasileiros do Norte e do Nordeste sofriam com essa e outras doenças, como gripe, disenteria, varíola. Preconceituosos, os gaúchos faziam versos sobre a suscetibilidade dos compatriotas. 'Mandai, Mãe de Deus, mais alguns dias de minuado, para acabar com tudo o que é baiano' (TORAL, André. Guerra no Mercosul, p. 39, setembro de 1999, Superinteressante, São Paulo, Editora Abril, ano 13, nº 9)"



Foram várias as tentativas de revoltosos nordestinos (em especial os pernambucanos) de tornar o nordeste independente. Antes e depois da independência do Brasil, por motivos econômicos e políticos a região tentou firmar um projeto político próprio condizente com as particularidades de sua cultura e sua economia. Pelo bem, ou pelo mal, não deu certo. Mas indiscutivelmente, o Nordeste tem uma cultura própria e específica diferente de outras do Brasil ou do mundo com uma visão muito peculiar das questões humanas.

Em 1989 a revista Leia perguntou a 44 escritores brasileiros em quem eles votariam na eleição para presidente. A revista revelou que Roberto Freire (PCB), Mários Covas (PSDB) e Lula (PT), lideravam as preferências de nossos escritores.

Mas como eles não eram os únicos eleitores, tivemos mesmo que amargurar um governo com Fernando Collor de Mello (PRN) que acabou nem completando o mandato. A História seria outra se apenas àqueles escritores tivessem direito a voto, porque dentre os 44 entrevistados, Collor não teve um único voto!

Um dos escritores entrevistados foi o poeta João Cabral de Melo Neto. Que mesmo sendo um autor reconhecido e premiado em todo o Brasil e no mundo, além de exercer cargos diplomáticos, não hesitou em dizer:


"Não me sinto brasileiro, mas sim pernambucano. E tem dois pernambucanos no pleito. Um é o "Severino" Lula, que faz questão de dizer que é do ABC paulista e renega seu nascimento em Guaranhuns. O outro é o Roberto Freire. Como o primeiro esqueceu que é do Nordeste, eu também vou esquecer que ele é pernambucano e não votarei nele. Mas faço questão de votar em candidato nordestino, pois minha região é perseguida pelo Centro-Sul. Sendo assim, não cravo nem Caiado nem Brizola de jeito nenhum. Se o segundo turno for entre o Collor e o Brizola, fico com o Collor". (Os escritores vão as urnas, pesquisa, revista Leia, ano XI, nº 132, 1989, p. 29, São Paulo, Joruês Cia. Editora)




Ainda há o exemplos de casos onde a razão e a ignorância cede lugar aos estereótipos. Sabemos que o Nordeste é a pátria de intelectuais, cientistas e escritos que figuram entre os maiores do país em todos os tempos.
O maior filósofo brasileiro, Tobias Barreto, nasceu no pequenino Estado de Sergipe. Nosso maior folclorista de todos os tempos, Antônio da Câmara Cascudo, nasceu no Rio Grande do Norte e Mário Schenberg, o físico apontado por Albert Einstein como um dos dez mais importantes do mundo, nasceu em Pernambuco.
Não obstante, os ignorantes irresponsavelmente continuam disseminando estereótipos sobre os nordestinos. Esse é o caso da autora de livros infanto-juvenis fluminense Maria Alice do Nascimento e Silva Leuzinger. Em seu livro "O diário de Marcos Vinicius" (pág. 28 a 30, José Olympio Editora, novembro de 1977, São Paulo):



"Domingo fomos ao cinema, num grupo barulhento duns dez, entre meninas e garotos. Ficção científica. Não sei o que esses caras pensam quando fazem esses filmes. Sabe? Eu acho que é para meter medo na gente, pra gente aceitar bem o presente, já que o futuro vai ser tão pior. Só valeu a pena, na minha opinião, pelo complemento nacional, uma comunidade do Nordeste. Coisas bacanas e diferentes que eles dizem, na sua ignorância, mas que até deixam a gente humilhada: 'Gosto da vida. Mesmo com dificuldades, gosto de viver. É bom.' 'Foi a seca que uniu os coração daqui. A seca de 70. Nós fugia um dos outros. Um tempo de crise fez nós entender o valor do outro. Na nossa terra, aqui, alguém que vendo o outro sofrer não ajuda, não é gente. O que tem, ajuda o que não tem.' 'Um sabe de umas idéias, outro sabe de outras, né? Nós tamos aprendendo que cada um atrás na cabeça um mundo diferente. Na sua cabeça você trás um mundo pra eu. Eu, na minha cabeça, dou um outro mundo pra você.'
Achei tão legal a conversa dos caras que copiei esses pedaços da reportagem que alguém pregou no jornal mural. No retrato, aparecem eles todos num grupo, homens, mulheres, crianças, todos magros, mal vestidos, mas contentes e olhando com riso e com amor uns para os outros...'aqui alguém que vendo o outro sofrer não ajuda, não é gente." É pena que isso só aconteça no Nordeste...e que o Nordeste esteja tão longe..."






Repare que neste trecho do livro a autora não se preocupa em fazer uma denúncia das condições de vida do povo nordestino, mas puramente ceder espaço ao estereótipo ao se referir genericamente aos nordestinos como " coisas bacanas e diferentes que eles dizem na sua ignorância". Além disso, até parece que era freqüente ver retirantes nordestinos nos cinemas na década de 70 quando o livro foi escrito. Nem hoje é.

Muito se tem reclamado que os americanos são ignorantes com relação ao resto do mundo. Porque ser tão exigentes com eles quando nós mesmos não conseguimos abandonar o julgamento por estereótipo contra nosso próprio povo? Por esse trecho da autora de livros infanto-juvenis, dá para perceber que o ponto de vista dela não é muito diferente do de um colonizador britânico observando os povos dos confins da África.

Em 1993, foi fundado em Pernambuco o “Gesni – Grupo de Estudos sobre o Nordeste Independente”, coordenado pelo engenheiro Jaques Ribemboim, Para ele, “trata-se de uma idéia sem rancores. O Brasil nunca encontrou uma solução para o problema nordestino porque não tem interesse nisso, mas nós poderíamos encontrar". O grupo nasceu de discussões no Mestrado em Economia da Universidade Federal de Pernambuco sobre a situação econômica nordestina. Depois de muitos debates, encontram a saída para o quadro econômico atual: o separatismo.
Segundo pesquisas, o Nordeste consome, aproximadamente, 50% do petróleo que produz, exportando o restante para o Sul., com preços subsidiados, obedecendo à política importa pelo Governo Federal. A frota regional de automóveis enriquece o “Sul maravilha”, com remessas de impostos exorbitantes cuja aplicação promove novamente o parque industrial daquela região. Com o mecanismo de exportação de produtos manufaturados a preços altos, numa espécie de “neocolonialismo interno”, o Nordeste tende a ficar mais fraco, sem poder de reação diante do “imperialismo sulista”. Os lobbies sulistas junto ao capital externo tiram qualquer possibilidade de crescimento do parque industrial nordestino.

Por enquanto, o máximo que foi produzido em separatismo no Nordeste - em período recente - foi a música "Se o Nordeste ficar independente...", de Ivanildo Vila Nova e Braulio Tavares interpretada por Elba Ramalho. Mas em entrevista ao site www.nordesteweb.com, Braulio Tavares (um dos autores da canção) fala sobre a polêmica gerada em torno de Nordeste Independente diz que:




"Na vida cotidiana desses poetas existe o hábito de "dar motes" o tempo inteiro, durante a conversa. Qualquer assunto é motivo para um mote. Você está conversando no balcão de um bar, pede um cafezinho, vem frio, você reclama. O poeta ao lado ri e dá o mote: "Quem bebe café aqui / pode pegar resfriado", ou algo assim. É quase um cacoete, uma mania benigna. Ivanildo Vila Nova é um cara muito opiniático, amante de polêmica, e faz críticas severas ao modo como o nordestino é tratado no "sul" (leia-se Rio e São Paulo). Uma vez ele propôs a idéia de "independer o Nordeste", e eu compus o mote na hora: "Imagine o Brasil ser dividido / e o Nordeste ficar independente". Ninguém glosou o mote na hora; Ivanildo me trouxe, dias depois, algumas glosas manuscritas. Como o mote era bom, era rendoso, eu também fiz várias glosas. Passei a cantá-las com amigos, em mesas de bar, e por fim Elba Ramalho usou esses versos em shows e em disco. No disco ela canta 6 estrofes, as 4 primeiras são de Ivanildo e as 2 últimas são minhas. Mas há pelo menos umas 15 estrofes a mais, muitas delas gravadas pelo próprio Ivanildo em seus discos.
Eu não levo muito a sério essa letra. Era um desabafo brincalhão, uma provocação bem-humorada. Dividir o Brasil não salvaria o Nordeste, se ele continuasse sendo dominado por latifundiários, políticos corruptos, etc. Como proposta política a sério, seria ingênuo e impraticável. Mas o verso tem como propósito chocar, impactar, produzir polêmica, e, mais especificamente, dar uma injeção positiva na auto-estima do nordestino. Pra mim é só isso. Ivanildo leva estes versos mais a sério." (fonte: http://www.nordesteweb.com/entrevista/neentrev_02.htm) 



Braulio Tavares Ivanildo Vila Nova


Nordeste Independente

(Música: domínio público.
Letra: Ivanildo Vila Nova e Braulio Tavares).
Já que existe no Sul este conceito
que o Nordeste é ruim, seco e ingrato,
já que existe a separação de fato
é preciso torná-la de direito.
Quando um dia qualquer isso fôr feito
todos dois vão lucrar imensamente
começando uma vida diferente
da que a gente até hoje tem vivido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Dividindo a partir de Salvador
o Nordeste seria outro país:
vigoroso, leal, rico e feliz,
sem dever a ninguém no exterior.
Jangadeiro seria o senador
o cassaco de roça era o suplente
cantador de viola o presidente
e o vaqueiro era o líder do partido.
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Em Recife o distrito industrial
o idioma ia ser "nordestinense"
a bandeira de renda cearense
"Asa Branca" era o hino nacional
o folheto era o símbolo oficial
a moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o Inconfidente
Lampião o herói inesquecido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
O Brasil ia ter de importar
do Nordeste algodão, cana, caju,
carnaúba, laranja, babaçu,
abacaxi e o sal de cozinhar.
O arroz e o agave do lugar
a cebola, o petróleo, o aguardente;
o Nordeste é auto-suficiente
nosso lucro seria garantido
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Se isso aí se tornar realidade
e alguém do Brasil nos visitar
neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido...
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fêz
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Todo ano no Rio de Janeiro
chegam levas e levas de migrantes
são milhares de braços retirantes
que fabricam montanhas de dinheiro.
Pois que o Rio prossiga em seu roteiro
e o Nordeste não seja um afluente
que conduz mil riquezas na torrente
e nem mesmo no mapa é conhecido;
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Se São Paulo é a tal "lomocotiva"
que conduz estes mais de cem milhões,
então deixe pra trás estes vagões
que lhe tornam a carga cansativa.
Eles vão ter a iniciativa:
ser puxados por boi, cavalo e gente.
Talvez andem bastante lentamente
mas seu rumo é seguro e conhecido.
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Se houver essa tal separação
através de um acordo ou de um tratado
o Brasil se verá desobrigado
de ampliar essa imensa região
e o Nordeste será uma nação
mais vistosa, mais rica e mais contente
sem ninguém que lhe humilhe e lhe sustente
sem um pai, um patrão ou um marido...
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Vejo tanta mulher, homem, menino
quando a seca flagela seu Estado
vir pro Sul pra ficar desempregado
sem poder transformar o seu destino.
Fico triste se vejo um nordestino
que podia talvez ser meu parente
vir pra cá pra virar um indigente,
um ladrão, um maluco ou um bandido...
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar inde









Por: Adrano Costa


Fonte: Portal Virtual Barcelona do RN

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