quinta-feira, 28 de junho de 2018

Nicarágua, o alvo da vez na mira do imperialismo


Se pensamos na Nicarágua de três meses atrás, e como está agora, não parece que estamos falando do mesmo lugar. Quando Daniel Ortega foi reeleito no final de 2016 com quase 72% de votos, o país tinha um dos melhores quadros de crescimento e desenvolvimento de bem-estar social do continente. Mas desde abril, quando começou uma onda de manifestações contra a reforma trabalhista proposta pelo presidente, o cenário mudou completamente. Não parece espontâneo, muito menos à toa.



Desde que começaram mas manifestações violentas, mais de 170 pessoas já foram mortas
 Desde que começaram mas manifestações violentas, mais de 170 pessoas já foram mortas


Tudo ia bem no pequeno país caribenho que ousou fazer uma revolução no final dos anos 70 e se manteve firme no rumo progressista, apesar de um hiato na década de 90. Os últimos cinco anos foram marcados por largo crescimento econômico, algo em torno de 4% ao ano, atrás apenas do Panamá. Aumentou o numero de empresas que se instalaram no país e, com mais oferta de empregos e políticas públicas de inclusão consolidadas, a migração para os Estados Unidos, Espanha e outras nações da América Central reduziu.

O quadro parecia estável no país que contava com a menor taxa de criminalidade das Américas e produzia 90% de todo o alimento consumido internamente. É inegável também o avanço da participação feminina na política. Atualmente, 46% do parlamento nicaraguense é ocupado por mulheres e há uma lei que prevê a participação de 50% de dirigentes políticas femininas em todas as instâncias de poder.

Mas quando o presidente Daniel Ortega anunciou que faria uma reforma trabalhista (cujo custo seria maior os patrões que aos trabalhadores), a Universidade Politécnica, em Manágua, foi o palco de uma onda de manifestações que, em poucas semanas se transformaram num movimento de desestabilização política.

Após os protestos, o presidente abriu mão da reforma, mas ainda assim, os manifestantes não liberaram as ruas e começaram a surgir muitos focos de violência. A pauta passou a ser a renúncia de Ortega e a convocação imediata de novas eleições.

Conversamos com a embaixadora da Nicarágua no Brasil, Lorena Martínez, para entender o que aconteceu e como esta onda de manifestações tem afetado o país. “É muito difícil explicar o que está acontecendo, não sabemos por onde começar. Os protestos surgiram de uma demanda justa e mesmo depois que nosso presidente voltou atrás com a medida, os protestos continuaram. Agora eles exigem a renúncia do presidente”.


Lorena Martínez em entrevista ao Portal Vermelho / Foto: Clécio Almeida



Para Lorena está claro que se trata de um processo de desestabilização que segue à risca um manual externo já utilizado em outros países da América Latina, entre eles, a Venezuela que também passa por uma crise política e econômica. “Houve sim manifestações justas. Mas agora existem muitos focos de violência provocados por jovens supostamente estudantes, mas que no final não são estudantes e sim mercenários que tem o objetivo de provocar violência. Eles não reivindicam saúde e educação porque são gratuitas, não há uma reivindicação social verdadeira”.

Desde que começaram as manifestações, em meados de abril, já foram causadas mais de 170 mortes, tanto de manifestantes quanto de policiais e pessoas não envolvidas nos protestos. Há casos de famílias sandinistas que tiveram suas casas destruídas, pessoas torturadas e assassinadas na rua. Episódios realmente muito parecidos aos da Venezuela contra os chavistas.

Os focos dos manifestantes normalmente são prédios públicos: já foram queimados ou destruídos delegacias, bibliotecas públicas, prédios ministeriais, além de ambulâncias, viaturas e caminhões de lixo.

Lorena esclarece que não se trata de um movimento que começou de uma hora pra outra. “Trata-se de um processo articulado para desestabilizar o governo de Ortega que conta com financiamento externo. Mas dentro do país temos organizações que já vem trabalhando para isso há muito tempo, temos as ONGs que há tempos estão envolvidas nisso”.

 

Repressão policial vs. violência civil

 

“No começo haviam manifestações convocadas pelas empresas e pela Igreja e muitas pessoas que não estavam satisfeitas com o governo saíram às ruas. É comum que existam pessoas insatisfeitas. Porém, logo começaram estes focos de violência e mudou o caráter dos protestos. Aí se constrói um discurso de que os manifestantes estão combatendo com paus e pedras. Mas isso não é verdade. Eles têm armas, mesmo que rudimentares, eles estão agredindo pessoas, torturando pessoas, matando pessoas, então a polícia precisa agir nestes focos de violência”, esclarece a embaixadora.

Segundo ela, com a revolução sandinista, em 1979, o sistema das Forças Armadas foi completamente reformulado e a polícia que existe hoje no país age com um treinamento mais humano e com valores revolucionários, diferente de muitos países latinos que ainda mantém o manual das ditaduras militares. “Na revolução nossos dirigentes sofreram com a repressão e a tortura da dinastia de [Anastasio] Somoza. Quando chegamos ao poder, tínhamos consciência de que nossa polícia tinha que ser diferente. Nossa polícia não é assassina”. 


Os 'tranqaues' como são chamadas as interrupções de vias


“Até três meses atrás nossa polícia era exemplar, não é possível que agora tenham se tornado assassinos e violadores dos direitos humanos. Isso é um projeto do manual de manipulação. Estes confrontos têm causado mortos de ambos os lados, e cabe à polícia tentar manter a ordem e proteger as pessoas que não estão envolvidas nestes focos de violência”, justifica a embaixadora.

Até então, a Nicarágua tinha o Exército que mais apreendia drogas no Caribe e se tornou um dos países com as menores taxas de criminalidade do continente porque desenvolveu um sistema de polícia comunitária. Para a embaixadora, estes valores continuam existindo: “não se pode dizer que agora nossa polícia virou assassina. Não se trata de uma repressão vazia. Eu lamento muito o que está acontecendo em meu país, mas precisamos manter a ordem, desobstruir as vias, garantir que as pessoas tenham o direito de sair de suas casas em paz para trabalhar e fazer suas coisas”.

 
Fake News e liberdade de expressão

 
Parte do pânico gerado na população se dá graças ao imenso compartilhamento de notícias falsas. É comum circular na internet imagens de manifestações em outros países, de pessoas agredidas e até mesmo mortas que nunca sequer chegaram perto da Nicarágua, como se fossem vítimas dos focos de violência. “Essas notícias se alastram muito rápido entre a população através da internet, principalmente em grupos de WhatsApp, e o tempo que levamos para conseguir combater e esclarecer uma notícia falsa é muito maior do que o tempo que ela leva para viralizar”, explica Lorena.

Segundo ela, o governo também tem tido muita dificuldade de combater as notícias falsas porque sofreu ataques diretos em seus meios de comunicação. A rádio pública foi destruída e uma rádio próxima aos sandinistas também foi queimada. Fora isso, há dois grandes canais de TV, com muita audiência, que historicamente estiveram contra o governo de Ortega e agora impulsionam o clima de caos.

“Eles falam em liberdade de expressão, mas onde está o respeito à liberdade quando nossos veículos de comunicação são destruídos? Precisamos denunciar que estamos todos padecendo com esta violência. Servidores públicos estão sendo estigmatizados, correm risco quando andam com carros com logo de instituições públicas ou uniformes. Isso tudo é muito grave”, denuncia.

 
Mesa de diálogo e participação da igreja

 
Com o caos instalado no país, o governo propôs que a oposição aceitasse o diálogo a fim de retomar a paz e assim foi montada uma mesa mediada pela Igreja Católica que historicamente sempre foi muito atuante no cenário político nicaraguense. A demanda do governo é o fim dos focos de violência para que as negociações sejam feitas dentro da ordem e da estabilidade política.


Para Lorena, Ortega foi muito prudente ao não convocar as bases sandinistas para que enfrentem os manifestantes opositores



Já a oposição pede o fim da violência policial, a renúncia de Ortega, a convocação de eleições e uma mudança completa do Conselho Supremo Eleitoral. “Eles exigem que sejam colocadas ‘pessoas adequadas’, mas o que são estas pessoas? Apenas as que defendem a ideologia deles?”, questiona a embaixadora.

Lorena explica que a oposição está muito dividida e há anos não tem força política para chegar ao poder pela via institucional por isso agora vê uma chance de boicotar o processo eleitoral. “Uma das forças que está por trás de tudo isso é o Movimento de Renovação Sandinista, uma parcela dissidente dos sandinistas que se dividiu em 1990. Eles se dizem sandinistas, mas odeiam tudo que o governo sandinista faz. Eles não têm muita força, tampouco base popular, então o caminho deles para tentar chegar ao governo é desta maneira”.

“Temos informação de que estão recebendo apoio e financiamento há muitos anos. E agora chegou o momento que acharam oportuno para reivindicar mudança institucional, porque esta é a única reivindicação. E isso não será permitido. Ortega venceu as eleições com quase 72% de votos e tem um apoio popular muito grande. Ele tem sido muito prudente em não convocar as bases para combater estas manifestações”, defende Lorena.

 
A revolução sandinista aos 40 anos

 
Em julho de 2019 a revolução sandinista completa 40 anos, e assim como outros países que ousaram mudar seus sistemas políticos de forma revolucionária, a Nicarágua está padecendo, mas Lorena espera que até lá, a crise tenha sido resolvida. “Este processo de desestabilização atingiu vários países de diferentes formas, e agora o campo progressista está em desvantagem, mas estamos resistindo, temos a Bolívia, Cuba, Venezuela e a Nicarágua que está resistindo e vai seguir assim. Somos países pequenos e o imperialismo não perdoa que os progressistas estejam no governo”.

Lorena era adolescente quando começou a revolução e já cresceu num país com novos valores. Durante a juventude, enfrentou a crise dos anos 90, quase um “período especial”, e conta que nesta fase difícil os sandinistas foram estigmatizados e sofreram para se inserir no mercado de trabalho, mas mantiveram a organização social porque eram convictos de que voltariam ao governo num momento oportuno. “A revolução nos inspirou muito e a solidariedade que recebemos de outros países foi fundamental”, conta.

“Esperamos chegar aos 40 anos em paz, vamos resistir a este momento e desejamos que as forças opositoras não avancem mais. Agora que vamos comemorar os 39 anos acreditamos que muito em breve vamos retomar o caminho da paz. Não podemos descuidar, é uma luta permanente, uma luta para atrair os jovens para que continuem neste caminho. Nosso governo está fazendo muito bem o trabalho de formação com os jovens, mas precisa aprofundar as questões políticas. O futuro do campo progressista depende muito da juventude”, finaliza a embaixadora.





Por Mariana Serafini

Fonte: Portal Vermelho

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